domingo, 19 de agosto de 2007

Aldir Brasil: Um contista Urbano

Aldir Brasil é um contista contemporâneo essencialmente urbano.Suas narrativas, em geral curtas, têm a marca da cidade e dos símbolos do seu tempo, tecendo uma escritura de registro. Seu estilo fragmentado dispensa elos coesivos e se constrói na fértil imaginação que revira a memória de sua adolescência para, através da aguçadíssima observação, extrair do cotidiano a matéria de seus escritos.

Extremamente sensível e criativo, ele passeia pela cidade, percorrendo suas ruas e seus prédios, numa tentativa de reconstrução, através da escrita, de uma cidade perdida em sua memória. Fortaleza é, assim, desenhada em suas ruas (Governador Sampaio, Carlos Vasconcelos, João Cordeiro, Costa Barros, Guilherme Rocha) e seus recantos (Santa Casa, Leão do Sul, Colégio Militar, Catedral, Galeria Pedro Jorge, Francinet Discos) prenhes de vidas e histórias para contar.

Em “A Fortaleza que poderia ter sido”, ele faz o leitor reviver figuras como Alba Frota e Virgílio Távora, bem como os Carnavais do Líbano, o jornal Correio do Ceará e as meninas do Colégio Imaculada. Nessa busca do passado, ele lamenta o fim de um ciclo da vida cultural da cidade com a destruição da casa de Alba Frota: “traduções de Dostoièvski feitas pela Rachel sob o olhar atento dos meninos do partido/Milton Dias falando de Valery/enquanto o piano inundava os ouvidos/ Venderam-na com todo mundo dentro (A casa de Alba)


Atento aos personagens da cidade, ele denuncia o mascaramento da prostituição infantil: “Ontem o gringo me ofereceu 50 paus pela fotos e mais 20 pelo fardamento escolar, garanto para o Sr. que ele não me tocou” (Pequena história de Adelita). A figura da prostituta, como a continuar a historinha de Adelita, aparece em “Irmã das almas ou o valor de cada um” e em “A espera”, na figura de uma Vênus que logo é a suicida Mariangeles, cuja espera inútil por aquele que a tiraria da vida leva-a a “explodir as têmporas”. Solução parecida com a do “grande guerreiro branco” que, derrotado pelo Alzheimer, é levado por uma linda Mãe d’Água e nunca mais foi visto pelas bandas da João Cordeiro (O estranho caso do homem da Governador Sampaio)

No encalço dos personagens que pululam nas ruas da cidade, há ainda o relato, tão lacônico quanto completo, da felicidade dos transexuais que realizam o sonho do cirurgia: “O corte entre as pernas transformou Jeremias em outro homem”; e a narração de pequenos flashes do cotidiano: “Depois de 16 anos de casados, ele trocou-a por uma negrinha adolescente. A dor foi tão intensa, que ela resolveu fazer terapia na Costa Barros” (Terapia), com uma sutileza que não isenta sua linguagem da extrema vigorosidade que possui.

Pequenos fatos corriqueiros transformam-se em notícia literária: “Armando de Castro, comerciante da Conde D’Eu, aplicou um pequeno golpe na praça e fugiu com a negrinha Joana sem avisar à família” (Pequenas transgressões II) e o humor parece ser a forma de sublimação das adversidades: “Ver o mundo de um só lado” (Paralisia facial)


Seu olhar agudo penetra, onisciente, os recônditos: Três senhores,em mangas de camisa/ saboreiam/sem que ninguém perceba/ a discreta T-shirt da moça ao lado/que guarda em silêncio/seu afeto pelo Moacir” e sua sensibilidade mostra a passagem do tempo com suas intempéries e benesses: “As sardas e o cabelo ligeiramente avermelhado cederam gentilmente o lugar às rugas e ao prestígio” (Vítor juiz).

Esses breves comentários mostram que, sem dúvida, Aldir Brasil Jr. está entre os mais produtivos escritores cearenses da contemporaneidade. O estilo fragmentado de suas narrativas curtas, a linguagem sutil, mas extremamente forte, são as marcas de uma escritura criativa e original nas nossas letras.

5 comentários:

Walmir disse...

bom saber desse escritor que eu não conhecia.
Virei sempre.
parabéns pelo blog e pela avaliação crítica da resenha.
paz e bem
Walmir
http://walmir.carvalho.zip.net

Walmir disse...

Continuo lendo seu blog, vou de pouco em pouco que tenho barriga pequena p'ra esvaziar o prato.
Gosto muito desse contato cearense.
Paz e bem

Walmir disse...

Continuo a leitura do seu blog, Aila, aliás coloquei um link dele no meu, depois dê uma olhada e vê se ficou a gosto.
Não sou contista, sou mesmo é dramaturgo (teatro, tv, cinema), mas agora estou me aventurando em narrativas no blog.
Conhecer esta literatura cearense me dá uns bons rascunhos de alegria.
Parabéns.
Grande abraço
Walmir

Airton Soares disse...

Boa noite
Profa. Aíla Sampaio

Primeira visita.
Objetivo: Estou catalogando sites e blogs sobre a Literatura Cearense. Dei uma rápida olhada. Já gostei. Virei mais vezes, claro!, com mais vagar. Parabéns pela empreitada.

elisabeth disse...

Aila nao sabia dessa veia Contista do meu irmao!!..... Vc escreve divinamente , Voila' Bettina